O endometrioma pode afetar a fertilidade, mas a decisão de operar precisa considerar também o possível impacto da cirurgia sobre a reserva ovariana. Por isso, cada caso deve ser avaliado com planejamento cuidadoso.
Sim, a cirurgia de endometrioma pode reduzir a reserva ovariana em algumas pacientes. Isso pode acontecer porque, durante a retirada do cisto, parte do tecido ovariano saudável pode ser removida ou afetada. Ao mesmo tempo, a própria presença do endometrioma também pode prejudicar a reserva ovariana. Por isso, a decisão entre operar, acompanhar, fazer FIV ou preservar óvulos antes da cirurgia deve ser individualizada, considerando idade, sintomas, tamanho e localização do cisto, AMH, desejo reprodutivo e histórico de cirurgias anteriores.
Por que essa decisão gera tanta dúvida?
Poucas decisões em ginecologia reprodutiva geram tanta angústia quanto operar ou não um endometrioma quando existe desejo de engravidar no futuro.
De um lado, há um cisto de endometriose dentro do ovário, que pode estar associado a dor, inflamação, alteração da anatomia pélvica e impacto sobre a fertilidade. De outro, existe o receio de que a cirurgia reduza a reserva ovariana e torne uma gestação futura mais difícil.
Por isso, a resposta raramente deve ser simplesmente “operar logo” ou “nunca operar”. Esse é um cenário que exige análise cuidadosa, porque tanto a doença quanto o tratamento cirúrgico podem influenciar a fertilidade.
O que é endometrioma?
O endometrioma é um cisto de endometriose localizado no ovário. Ele costuma conter material espesso e escuro, resultado de sangramentos cíclicos relacionados ao tecido endometriótico.
Esse tipo de cisto pode aparecer em um ou nos dois ovários. Em algumas mulheres, causa dor pélvica, cólicas intensas, dor durante a relação sexual ou dificuldade para engravidar. Em outras, pode ser identificado em exames de imagem durante uma investigação de rotina ou avaliação de infertilidade.
O impacto do endometrioma depende de vários fatores, como tamanho, localização, bilateralidade, sintomas, reserva ovariana e planos reprodutivos.
O dilema central: o endometrioma pode reduzir a reserva, mas a cirurgia também
O ponto mais importante é entender que existem dois lados do problema. A presença do endometrioma pode estar associada à redução da reserva ovariana, possivelmente por inflamação crônica, estresse oxidativo e alteração do ambiente folicular. Isso significa que simplesmente deixar o cisto sem acompanhamento também não é uma decisão neutra em todos os casos.
Ao mesmo tempo, a retirada cirúrgica do endometrioma também pode afetar a reserva. Como o cisto está dentro do ovário, a separação da cápsula pode remover tecido ovariano saudável junto com a lesão ou exigir controle de sangramento em uma região delicada.
Esse risco tende a ser mais relevante quando o endometrioma é maior, bilateral, localizado em regiões mais internas do ovário ou quando a paciente já passou por cirurgias ovarianas anteriores. Por isso, operar não deve ser uma conduta automática para toda mulher com endometrioma e desejo de engravidar.
A técnica cirúrgica evoluiu, mas o risco não desapareceu
Com o reconhecimento do impacto da cirurgia sobre a reserva ovariana, as técnicas cirúrgicas passaram a ser planejadas com maior atenção à preservação do tecido ovariano saudável.
Mesmo assim, o risco de redução da reserva não desaparece completamente. O cuidado cirúrgico, o tipo de energia utilizado, a experiência da equipe e a estratégia escolhida para tratar o cisto podem influenciar o resultado.
Quando a cirurgia é indicada, o objetivo deve ser tratar a doença com o menor dano possível ao ovário, principalmente em mulheres que ainda desejam engravidar.
Cistectomia ou ablação: a técnica importa?
Sim, a técnica importa. Quando a cirurgia é indicada, a forma de tratar o endometrioma pode influenciar tanto o risco de recorrência quanto o impacto sobre a reserva ovariana.
Cistectomia
A cistectomia é a retirada da parede do cisto. Em alguns estudos, essa técnica aparece associada a menor risco de recorrência e melhora de sintomas em comparação com drenagem e ablação.
Por outro lado, como envolve a separação da cápsula do cisto do tecido ovariano, pode ter maior impacto sobre a reserva ovariana, especialmente quando a cápsula está muito aderida ou quando há pouco tecido saudável preservável.
Técnicas ablativas
As técnicas ablativas tratam a parede interna do cisto com métodos como laser, plasma ou outras formas de energia. Em alguns estudos, essas técnicas podem estar associadas a menor impacto sobre a reserva ovariana.
Entretanto, a escolha não é universal. O tipo de técnica depende das características do cisto, da reserva ovariana basal, dos sintomas, do risco de recorrência, do desejo reprodutivo e da experiência da equipe cirúrgica.
Não existe uma técnica ideal para todas as pacientes
A comparação entre cistectomia e ablação precisa ser feita caso a caso. Em algumas mulheres, reduzir recorrência pode ser prioridade. Em outras, preservar ao máximo a reserva ovariana pode ser o ponto mais importante.
Essa decisão deve ser discutida antes da cirurgia, principalmente quando há baixa reserva ovariana, endometrioma bilateral ou desejo de gestação futura.
Quando a cirurgia de endometrioma pode ser considerada?
A cirurgia pode ser considerada em situações específicas, mas não deve ser indicada apenas pela presença do cisto.
A discussão cirúrgica ganha mais importância quando existe dor pélvica relevante, sintomas que prejudicam a rotina, suspeita de endometriose profunda associada, crescimento do endometrioma no acompanhamento, dúvida diagnóstica nos exames de imagem ou falha do tratamento clínico em uma paciente sintomática.
Também pode haver indicação de cirurgia quando o endometrioma dificulta tecnicamente o acesso aos folículos em um tratamento de reprodução assistida ou quando é necessário tratar a dor antes de planejar uma gestação.
A decisão deve equilibrar os benefícios esperados da cirurgia com o risco de impacto sobre a reserva ovariana.
Quando acompanhar sem operar pode ser uma opção?
Em muitos casos, acompanhar o endometrioma sem cirurgia pode ser uma alternativa válida, especialmente quando a paciente tem poucos sintomas, reserva ovariana reduzida, desejo de engravidar em breve ou maior risco de perda ovariana com o procedimento.
Acompanhar não significa ignorar o problema. Significa monitorar o cisto, avaliar sintomas, revisar exames e considerar a fertilidade dentro de um plano reprodutivo.
Essa conduta pode ser especialmente relevante quando a cirurgia teria baixo benefício esperado e alto risco de impacto sobre a reserva ovariana.
Como avaliar a reserva ovariana antes da decisão?
A reserva ovariana deve ser avaliada antes de decidir sobre a cirurgia, principalmente em mulheres com desejo reprodutivo.
O hormônio antimülleriano, conhecido como AMH, é um exame de sangue que ajuda a estimar o estoque de óvulos. O ultrassom transvaginal com contagem de folículos antrais também pode contribuir para essa avaliação.
Esses exames não dizem tudo sobre a chance de gravidez, porque não avaliam diretamente a qualidade dos óvulos. Ainda assim, ajudam a entender se a paciente tem margem de segurança maior ou menor antes de uma cirurgia ovariana.
Quando considerar congelamento de óvulos ou embriões antes da cirurgia?
Quando a cirurgia é considerada necessária e a reserva ovariana já está baixa, vale discutir antes do procedimento a possibilidade de congelamento de óvulos ou embriões.
Essa estratégia pode preservar uma chance reprodutiva futura para quem ainda não pretende engravidar, reduzir o risco de perder uma oportunidade importante caso a cirurgia afete a reserva ou organizar um tratamento de FIV antes do procedimento quando houver indicação reprodutiva.
Em algumas pacientes, pode fazer sentido congelar embriões para transferência após o tratamento cirúrgico. Essa conversa deve acontecer antes da cirurgia, porque depois do procedimento a reserva ovariana pode estar menor.
A decisão depende da idade, do AMH, da contagem de folículos, da presença de parceiro ou desejo de formar embriões, dos sintomas e do tempo disponível para tentar engravidar.
Agende uma avaliação para discutir reserva ovariana, endometrioma e planejamento reprodutivo.
Endometrioma bilateral exige mais cautela?
Sim. Quando há endometrioma nos dois ovários, a decisão cirúrgica costuma exigir cautela ainda maior, porque ambos os ovários podem estar em risco.
Nesses casos, a avaliação da reserva ovariana e a discussão sobre preservação da fertilidade antes da cirurgia se tornam especialmente importantes.
A mesma cautela vale para pacientes que já passaram por cirurgia ovariana anterior. Cirurgias repetidas no mesmo ovário tendem a aumentar o risco de impacto sobre a reserva.
Por que a primeira cirurgia importa tanto?
Quando a cirurgia é realmente indicada, a primeira abordagem costuma ser muito importante. Uma cirurgia bem planejada pode reduzir a necessidade de reoperações e preservar mais tecido ovariano saudável.
Isso não significa que toda primeira cirurgia trará o mesmo resultado, nem que a recorrência nunca ocorrerá. Mas reforça a importância de planejamento cuidadoso, técnica adequada e avaliação completa antes da decisão.
Por que a decisão não deve ser automática?
Operar, acompanhar, preservar óvulos, fazer FIV antes da cirurgia ou tentar engravidar antes de operar: nenhuma dessas escolhas serve para todas as mulheres.
A decisão precisa integrar idade, desejo de engravidar agora ou no futuro, reserva ovariana pelo AMH e pela contagem de folículos antrais, tamanho e localização do endometrioma, presença de cisto em um ou nos dois ovários, intensidade da dor, suspeita de endometriose profunda associada, histórico de cirurgias ovarianas anteriores e planejamento de FIV ou tentativa natural.
O objetivo não é evitar cirurgia a qualquer custo, nem operar por rotina. O objetivo é escolher a estratégia mais coerente com o caso clínico e com os planos reprodutivos da paciente.
Quando procurar avaliação especializada
A avaliação médica deve ser considerada quando há endometrioma e dúvida sobre cirurgia, fertilidade ou preservação de óvulos.
Essa avaliação é especialmente importante quando a paciente deseja engravidar no futuro, quando o endometrioma é bilateral, quando há baixa reserva ovariana ou AMH reduzido, quando já houve cirurgia ovariana anterior ou quando existe dor pélvica intensa ou progressiva.
Também merece atenção a situação em que a paciente recebeu indicação cirúrgica sem uma discussão clara sobre reserva ovariana, congelamento de óvulos, FIV ou alternativas de acompanhamento. Em casos de recidiva após cirurgia anterior, a decisão de reoperar deve ser ainda mais cuidadosa.
Uma avaliação individualizada ajuda a organizar sintomas, exames, idade, reserva ovariana e objetivos reprodutivos antes de definir o próximo passo.
Agende uma avaliação com o Prof. Dr. Alexander Kopelman.
Perguntas frequentes
A cirurgia de endometrioma reduz a reserva ovariana?
Pode reduzir. Durante a retirada do cisto, parte do tecido ovariano saudável pode ser removida ou afetada. O risco tende a ser maior em cistos maiores que 3 cm, bilaterais, localizados em regiões mais internas do ovário ou em cirurgias repetidas.
O endometrioma diminui a fertilidade mesmo sem cirurgia?
Sim, pode diminuir. A própria presença do endometrioma pode estar associada à redução da reserva ovariana, possivelmente por inflamação crônica, estresse oxidativo e alteração do ambiente folicular.
Todo endometrioma precisa ser operado?
Não. Operar não é conduta automática. Em muitos casos, o acompanhamento sem cirurgia pode ser considerado, especialmente quando há poucos sintomas, baixa reserva ovariana ou desejo de engravidar em breve. A decisão deve ser individualizada.
Devo congelar óvulos antes de operar um endometrioma?
Em alguns casos, sim. Quando a cirurgia é necessária e a reserva ovariana já está baixa, pode ser importante discutir o congelamento de óvulos ou embriões antes do procedimento. Essa decisão depende da idade, reserva ovariana, sintomas e planos reprodutivos.
Qual técnica preserva mais a reserva ovariana: cistectomia ou ablação?
Alguns estudos sugerem que técnicas ablativas podem ter menor impacto sobre a reserva ovariana, enquanto a cistectomia pode reduzir mais a recorrência em certos contextos. Não existe uma técnica ideal para todas as pacientes; a escolha depende do caso.
Operar endometrioma pela segunda vez é mais arriscado para a fertilidade?
Cirurgias repetidas no ovário tendem a aumentar o risco de impacto sobre a reserva ovariana. Por isso, diante de uma recidiva, a decisão de reoperar deve ser feita com cautela e pode exigir discussão sobre preservação da fertilidade.
Considerações finais
A cirurgia de endometrioma pode reduzir a reserva ovariana, mas o próprio endometrioma também pode afetar a fertilidade. Esse é o centro do dilema: não se trata apenas de operar ou não operar, mas de definir o momento, a técnica e a estratégia reprodutiva mais adequada.
Em mulheres com desejo de engravidar, a avaliação do AMH, da contagem de folículos antrais, da idade e dos sintomas deve fazer parte da decisão.
Quando a cirurgia é necessária e a reserva ovariana está reduzida, discutir congelamento de óvulos ou embriões antes do procedimento pode ser uma etapa importante do planejamento.
Agende uma avaliação para entender qual estratégia faz mais sentido para o seu caso.
Referências e leituras complementares
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- Younis JS, Taylor HS. The impact of ovarian endometrioma and endometriotic cystectomy on anti-Müllerian hormone, and antral follicle count: a contemporary critical appraisal of systematic reviews. Frontiers in Endocrinology. 2024;15:1397279. DOI: 10.3389/fendo.2024.1397279.
- Supramaniam PR, et al. The Effect of Surgery for Endometriomas on Fertility. Scientific Impact Paper No. 55, 2025 Second Edition. BJOG. 2025.
- Zhang Y, Zhang S, Zhao Z, Wang C, Xu S, Wang F. Impact of cystectomy versus ablation for endometrioma on ovarian reserve: a systematic review and meta-analysis. Fertility and Sterility. 2022.
- Baraki D, Richards EG, Falcone T. Treatment of endometriomas: surgical approaches and the impact on ovarian reserve, recurrence, and spontaneous pregnancy. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology. 2023.
Sobre o autor
O Prof. Dr. Alexander Kopelman é Médico Ginecologista — CRM-SP 103.944 — com RQE 945031 em Endoscopia Ginecológica e RQE 945032 em Reprodução Assistida. É MD, MSc e PhD pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Foi Professor Adjunto do Departamento de Ginecologia da UNIFESP/EPM entre 2019 e 2024 e atualmente atua como Colaborador Científico e Professor Voluntário, com atuação no Ambulatório de Endometriose. Tem atuação em endometriose profunda, dor pélvica crônica, endometrioma, adenomiose, infertilidade, reprodução humana, preservação da fertilidade, cirurgia ginecológica minimamente invasiva e cirurgia robótica. É Console Surgeon certificado em Cirurgia Robótica Da Vinci Xi pelo IRCAD América Latina. Atende em São Paulo, na Clínica Evince, e realiza procedimentos cirúrgicos nos hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Conteúdo revisado clinicamente pelo Prof. Dr. Alexander Kopelman em 20/06/2026.
Aviso médico: este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial ou avaliação individualizada. Cada caso deve ser analisado por profissional habilitado.


