A cirurgia para endometrioma de ovário exige planejamento cuidadoso, técnica delicada e atenção à preservação da reserva ovariana, especialmente em mulheres que desejam engravidar no futuro.
A cirurgia para endometrioma de ovário costuma envolver planejamento com exame de imagem adequado, avaliação da reserva ovariana pelo AMH e remoção cuidadosa do cisto com preservação do tecido ovariano. Em muitos casos, o cisto é esvaziado e sua cápsula é retirada do ovário, com controle do sangramento feito de forma cautelosa para evitar dano excessivo à vascularização ovariana. Quando a reserva já está baixa, pode ser necessário discutir congelamento de óvulos ou embriões antes da cirurgia. A conduta deve ser sempre individualizada.
Por que essa cirurgia gera tanto medo?
Para muitas mulheres, receber a indicação de cirurgia para endometrioma de ovário vem acompanhado de duas preocupações principais: o medo de perder reserva ovariana e o medo de perder o ovário.
Esses receios são compreensíveis. O endometrioma é um cisto de endometriose localizado dentro do ovário, justamente o órgão que contém os folículos e os óvulos. Por isso, qualquer cirurgia nessa região precisa ser planejada com cuidado, principalmente quando há desejo de gravidez atual ou futura.
A preservação da reserva ovariana não depende de um único detalhe. Ela começa antes da cirurgia, com exames adequados, e continua durante o procedimento, com técnica cirúrgica cuidadosa e controle do sangramento com o menor dano possível ao ovário.
O que é endometrioma de ovário?
O endometrioma é um cisto ovariano associado à endometriose. Ele costuma conter um líquido espesso, escuro, frequentemente descrito como semelhante a chocolate, resultado de sangramentos cíclicos dentro do cisto.
Esse cisto pode aparecer em um ovário ou nos dois. Em algumas pacientes, causa dor pélvica, cólica intensa, dor durante a relação sexual ou dificuldade para engravidar. Em outras, é encontrado em exames de imagem durante investigação de infertilidade ou acompanhamento ginecológico.
O tratamento depende de sintomas, tamanho do cisto, localização, presença de outras lesões de endometriose, idade, reserva ovariana e planos reprodutivos.
Por que o planejamento é tão importante?
O endometrioma raramente deve ser analisado como uma lesão isolada. A literatura médica e a experiência clínica mostram que o endometrioma de ovário pode estar associado à endometriose profunda na pelve em uma parcela relevante das pacientes.
Além disso, o ovário com endometrioma pode estar aderido a regiões próximas, como a parte de trás do útero e estruturas delicadas da pelve, incluindo os ureteres. Isso pode modificar completamente o planejamento cirúrgico.
Por esse motivo, operar um endometrioma não significa apenas retirar um cisto. Em muitos casos, é necessário mapear a pelve, identificar lesões associadas e planejar a equipe, os materiais e a estratégia cirúrgica antes do procedimento.
Quais exames são importantes antes da cirurgia?
Antes da cirurgia, alguns exames ajudam a definir a complexidade do caso e a proteger a fertilidade da paciente.
Ultrassom com preparo intestinal ou ressonância magnética para endometriose
O ultrassom transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética de pelve com protocolo para endometriose podem ajudar a mapear o endometrioma e possíveis lesões associadas.
Esses exames são importantes porque a cirurgia pode mudar se houver endometriose profunda, lesão intestinal, acometimento de ureteres ou aderências importantes. Nesses cenários, pode ser necessário envolver equipe multidisciplinar e solicitar materiais específicos ao hospital.
Mais do que escolher entre ultrassom e ressonância, o ponto central é a qualidade do exame e a experiência de quem realiza e interpreta a avaliação.
AMH para avaliar a reserva ovariana
O hormônio antimülleriano, conhecido como AMH, é um exame de sangue usado para estimar a reserva ovariana. Ele não mede diretamente a qualidade dos óvulos, mas ajuda a entender o estoque disponível.
A dosagem do AMH ganha importância especial em mulheres com endometrioma bilateral, baixa reserva suspeita, cirurgia ovariana prévia ou idade próxima dos 35 anos.
Quando a reserva já está reduzida, pode ser necessário discutir preservação da fertilidade antes da cirurgia.
Como é feita a cirurgia para endometrioma?
A técnica pode variar conforme o caso, mas uma abordagem frequentemente utilizada envolve esvaziar o cisto e remover sua cápsula de dentro do ovário, sempre com cuidado para preservar o máximo possível de tecido ovariano saudável.
Primeiro passo: mobilização do ovário e esvaziamento do cisto
Durante a cirurgia, o ovário pode estar aderido a outras estruturas da pelve. Ao mobilizar o ovário e separar aderências, o endometrioma pode se abrir e liberar o conteúdo espesso característico do cisto.
Esse conteúdo é aspirado com instrumentos cirúrgicos delicados, especialmente em cirurgias por vídeo ou robóticas. O objetivo é limpar o campo operatório e permitir a identificação da cápsula do endometrioma.
Segundo passo: remoção da cápsula
Depois que o cisto é esvaziado, resta a cápsula do endometrioma. Essa cápsula precisa ser separada do tecido ovariano com movimentos delicados.
A remoção completa da cápsula pode reduzir o risco de recidiva, mas exige cuidado para evitar retirada excessiva de tecido ovariano saudável. Esse é um dos momentos mais importantes para preservar a reserva ovariana.
Terceiro passo: controle do sangramento
Após a retirada da cápsula, a área do ovário onde o cisto estava pode sangrar. O controle desse sangramento deve ser feito com cautela.
O uso excessivo de energia térmica, como cauterização intensa, pode prejudicar a vascularização do ovário e afetar a reserva ovariana. Por isso, em alguns casos, pode-se aguardar a coagulação natural, usar técnicas hemostáticas menos agressivas ou aplicar métodos que reduzam a necessidade de cauterização.
A literatura recente reforça a importância de métodos de hemostasia que preservem melhor a reserva ovariana quando comparados ao uso excessivo de eletrocoagulação.
Cirurgia por vídeo, laparoscopia ou robótica: qual é o papel?
A cirurgia para endometrioma pode ser realizada por técnicas minimamente invasivas, como videolaparoscopia ou cirurgia robótica, quando indicadas e disponíveis.
Essas abordagens permitem visualização ampliada da pelve, dissecção precisa e tratamento de lesões associadas. A escolha entre laparoscopia e robótica depende da complexidade do caso, das lesões associadas, da experiência da equipe e da estrutura hospitalar.
O mais importante não é apenas o tipo de acesso, mas o planejamento, a técnica e a preservação do tecido ovariano saudável.
Existe risco de perder o ovário?
Quando se trata de um endometrioma confirmado, o objetivo da cirurgia é preservar o ovário. A retirada do ovário não faz parte do planejamento habitual nesse cenário, especialmente em mulheres com desejo reprodutivo.
Existe, porém, uma situação diferente: quando os exames levantam suspeita de que o cisto possa não ser um endometrioma, mas outro tipo de lesão ovariana, inclusive tumor. Essa suspeita pode aparecer quando há partes sólidas dentro do cisto, múltiplos septos, crescimento atípico, tamanho muito volumoso, marcadores sanguíneos alterados, dúvida importante nos exames de imagem ou quando a paciente está mais próxima da menopausa.
Nesses casos, o planejamento cirúrgico muda. A possibilidade de retirada do ovário pode ser discutida apenas quando há suspeita relevante de outra doença, e não como rotina em endometrioma confirmado.
Como preservar a reserva ovariana durante a cirurgia?
A preservação da reserva ovariana depende de um conjunto de cuidados antes, durante e depois da cirurgia. O primeiro passo é chegar ao centro cirúrgico com um bom planejamento: exame de imagem adequado, avaliação da reserva ovariana com AMH e, quando indicado, contagem de folículos antrais.
Também é importante entender se o endometrioma é unilateral ou bilateral, se há suspeita de baixa reserva, se a paciente já operou os ovários antes e se existe desejo de engravidar no futuro. Quando a reserva está baixa ou o risco cirúrgico para o ovário é maior, a possibilidade de congelamento de óvulos ou embriões deve ser discutida antes do procedimento.
Durante a cirurgia, a preservação depende de técnica delicada, remoção cuidadosa da cápsula, controle cauteloso do sangramento e atenção para evitar retirada excessiva de tecido ovariano saudável. Esses cuidados não eliminam todos os riscos, mas ajudam a reduzir o impacto da cirurgia sobre o ovário.
Quando considerar congelamento de óvulos antes da cirurgia?
O congelamento de óvulos ou embriões pode ser considerado antes da cirurgia quando há risco maior de redução da reserva ovariana ou quando a paciente deseja preservar a fertilidade futura.
Essa conversa costuma ser especialmente importante em mulheres com endometrioma bilateral, AMH baixo, idade próxima ou acima dos 35 anos, cirurgia ovariana anterior, desejo de engravidar no futuro ou planejamento de FIV. Também pode ser relevante quando os endometriomas são grandes, de difícil abordagem ou quando há risco de perda adicional de tecido ovariano.
Em alguns casos, coletar e congelar óvulos ou embriões antes da cirurgia pode proteger uma oportunidade reprodutiva importante. A decisão depende de idade, reserva ovariana, urgência cirúrgica, sintomas e objetivos da paciente.
E em endometriomas grandes ou bilaterais?
Endometriomas grandes ou bilaterais exigem planejamento ainda mais cuidadoso, porque o impacto potencial sobre a reserva ovariana pode ser maior.
Em casos selecionados, especialmente diante de endometriomas grandes ou bilaterais, pode-se considerar uma punção pré-cirúrgica com esvaziamento e alcoolização como parte do planejamento para simplificar o procedimento e tentar reduzir o impacto sobre a reserva ovariana.
Essa estratégia não se aplica a todas as pacientes e precisa ser avaliada com cautela, conforme imagem, sintomas, reserva ovariana e planejamento reprodutivo.
Como evitar que o endometrioma volte depois da cirurgia?
A prevenção de recidiva é parte importante do tratamento. Retirar o endometrioma é uma etapa; reduzir o risco de retorno da doença é outra.
Quando a paciente não está tentando engravidar imediatamente, o bloqueio menstrual com contraceptivos hormonais que interrompem a ovulação pode ser considerado no pós-operatório. Entre as opções, conforme avaliação individual, podem estar pílula anticoncepcional, adesivo hormonal, anel vaginal ou contraceptivos injetáveis.
O DIU hormonal pode ser útil em outras situações ginecológicas, mas não costuma ser a principal escolha quando o objetivo é prevenir recidiva de endometrioma de ovário, porque não bloqueia completamente a ovulação.
A escolha do bloqueio deve considerar sintomas, desejo reprodutivo, contraindicações hormonais, tolerância da paciente e planejamento de gravidez.
Por que a decisão não deve ser automática?
Nem toda mulher com endometrioma precisa operar. E, quando a cirurgia é indicada, nem todas precisam do mesmo tipo de planejamento.
A decisão deve reunir idade, desejo de engravidar agora ou no futuro, reserva ovariana, tamanho do endometrioma, presença de lesão em um ou nos dois ovários, intensidade da dor, suspeita de endometriose profunda, risco de lesões intestinais ou ureterais associadas, histórico de cirurgia prévia, risco de recidiva e possibilidade de congelamento de óvulos ou embriões.
Mais do que escolher entre operar ou não operar, a avaliação deve definir o melhor planejamento para aquela paciente. A preservação da fertilidade em uma cirurgia de endometrioma depende do conjunto: exame de imagem adequado, avaliação da reserva ovariana, planejamento cirúrgico, técnica delicada e conduta pós-operatória.
Quando procurar avaliação especializada
A avaliação médica deve ser considerada quando há endometrioma de ovário e dúvida sobre cirurgia, reserva ovariana ou preservação da fertilidade.
Essa avaliação é especialmente importante quando a cirurgia para endometrioma já foi indicada, quando existe medo de perder reserva ovariana ou o ovário, quando o endometrioma é bilateral ou grande, quando o AMH está baixo ou quando há desejo de engravidar no futuro.
Também merece atenção a suspeita de endometriose profunda associada, recidiva de endometrioma após cirurgia anterior, dúvida sobre congelamento de óvulos antes do procedimento ou incerteza entre operar, acompanhar ou fazer FIV.
Uma avaliação individualizada ajuda a definir o melhor planejamento para tratar o endometrioma com atenção à segurança, aos sintomas e aos objetivos reprodutivos da paciente.
Perguntas frequentes
A cirurgia de endometrioma de ovário pode fazer eu perder o ovário?
Quando se trata de um endometrioma confirmado, o objetivo da cirurgia é preservar o ovário, e a retirada do órgão não faz parte do planejamento habitual. A possibilidade de retirada só entra em discussão quando há suspeita de tumor ou outra condição, avaliada antes da cirurgia por exames de imagem e marcadores sanguíneos.
Qual é a técnica usada para retirar o endometrioma?
Uma técnica frequentemente utilizada é esvaziar o cisto e remover cuidadosamente a cápsula de dentro do ovário. Essa abordagem pode reduzir a chance de recidiva, mas deve ser feita com atenção para preservar o tecido ovariano saudável e controlar o sangramento sem cauterização excessiva.
Quais exames são necessários antes da cirurgia?
Podem ser indicados ultrassom com preparo intestinal ou ressonância magnética com protocolo para endometriose, além da dosagem do AMH para avaliar a reserva ovariana. Esses exames ajudam a mapear o endometrioma, possíveis lesões associadas e o risco reprodutivo.
Preciso congelar óvulos antes de operar?
Em alguns casos, pode ser recomendado discutir congelamento de óvulos ou embriões antes da cirurgia, especialmente quando a reserva ovariana está baixa, o endometrioma é bilateral, há cirurgia ovariana prévia ou a paciente está próxima dos 35 anos e deseja engravidar no futuro.
Como evitar que o endometrioma volte depois da cirurgia?
Quando a paciente não está tentando engravidar imediatamente, pode ser considerado bloqueio menstrual com contraceptivos hormonais que interrompam a ovulação, como pílula, adesivo, anel vaginal ou injetáveis. A escolha depende da avaliação médica individual.
Por que a cirurgia de endometrioma pode envolver mais do que o cisto?
Porque o endometrioma pode estar associado à endometriose profunda e a aderências pélvicas. Em alguns casos, há lesões próximas ao intestino, ureteres ou região atrás do útero, o que exige planejamento cuidadoso e, às vezes, equipe multidisciplinar.
Considerações finais
A cirurgia para endometrioma de ovário não deve ser vista apenas como retirada de um cisto. Ela envolve planejamento, avaliação da reserva ovariana, mapeamento da endometriose, técnica cirúrgica cuidadosa e prevenção de recidiva.
Para mulheres que desejam engravidar no futuro, a preservação da fertilidade precisa ser discutida antes da cirurgia, especialmente quando há endometrioma bilateral, AMH baixo ou idade próxima dos 35 anos.
Com avaliação individualizada, é possível organizar melhor os riscos, os benefícios e as alternativas antes de decidir o caminho mais adequado.
Referências e leituras complementares
- Park SJ, Seol A, Lee N, Lee S, Kim HS. A randomized controlled trial of ovarian reserve preservation and hemostasis during ovarian cystectomy. Scientific Reports. 2021;11:8499. DOI: 10.1038/s41598-021-87965-7.
- Lin YH, Hsia LH, Huang YY, Chang HJ, Lee TH. Potential damage to ovarian reserve from laparoscopic electrocoagulation in endometriomas and benign ovarian cysts: a systematic review and meta-analysis. Journal of Assisted Reproduction and Genetics. 2024. DOI: 10.1007/s10815-024-03227-1.
Sobre o autor
O Prof. Dr. Alexander Kopelman é Médico Ginecologista — CRM-SP 103.944 — com RQE 945031 em Endoscopia Ginecológica e RQE 945032 em Reprodução Assistida. É MD, MSc e PhD pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP/EPM). Foi Professor Adjunto do Departamento de Ginecologia da UNIFESP/EPM entre 2019 e 2024 e atualmente atua como Colaborador Científico e Professor Voluntário, com atuação no Ambulatório de Endometriose. Tem atuação em endometriose profunda, dor pélvica crônica, endometrioma, adenomiose, infertilidade, reprodução humana, preservação da fertilidade, cirurgia ginecológica minimamente invasiva e cirurgia robótica. É Console Surgeon certificado em Cirurgia Robótica Da Vinci Xi pelo IRCAD América Latina. Atende em São Paulo, na Clínica Evince, e realiza procedimentos cirúrgicos nos hospitais Israelita Albert Einstein, Sírio-Libanês e Vila Nova Star.
Conteúdo revisado clinicamente pelo Prof. Dr. Alexander Kopelman em 19/06/2026.
Aviso médico: este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial ou avaliação individualizada. Cada caso deve ser analisado por profissional habilitado.